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MEMORIA MUSICAL MATO-GROSSENSE E ALGUNS COMPOSITORES ANTOLÓGICOS.

AUTOR: GUAPO

Desde de sua fundação em 1719 Cuiabá tem registro de festas, comemorações, folguedos acompanhado de musica. Os eventos duravam dias, semanas e as vezes um mês inteiro. O entretenimento era 80% musical devido ao desenvolvimento que a musica alcançou no século XVIII e também a predominância maior do poder do clero e do militarismo nessa época os quais foram ao longo da historia os maiores promotores da música.

No século XVIII ouve vários músicos na 1ª capital Vila Bela e depois em Cuiabá que participaram nos eventos da época onde se registrou as comemorações e apresentações de ballet, bailes de mascaras, operas, bem como missas, te deum, tocatas, etc... O primeiro registro de músico contratado na nossa história, aconteceu no século XIX e foi o maestro Veríssimo Jose de Souza Guimarães que tocou as novenas e outras festas em 1º de janeiro de 1829 (Registro do Historiador Rubens de Mendonça – Nos Bastidores da História Mato-grossense). Logo em seguida Luis Euzébio de Brito (período de 1829 à 1833); João Bonifácio da Mota em 1833, Felipe Nery Pereira em 1834 e Lúcio José de Arruda. Todos eram regentes de bandas.

Com a criação do Jardim Alencastro em 1882, foi também criado um espaço para apresentação das bandas intensificando a programação musical na capital, pois toda quinta e domingo tinha as históricas retretas nesse jardim. Um dos compositores mais antigo nascido em Mato Grosso foi José Mamede da Silva Rondon segundo a musicista e escritora Dunga Rodrigues, ele nasceu em Cuiabá no dia 17 de Agosto de 1863 (ver resumo Biográfico do mesmo) é autor do Hino ao Espírito Santo, muito popular fazendo parte dos antológicos hinos católicos cuiabano.

Não houve empenho e nem consciência cultural por parte dos governantes na história musical de Mato Grosso, pois os mesmos eram descendentes de pessoas como em todo Brasil que tinha o espírito colonialista de conseguir riquezas e voltar para “um lugar civilizado” esquecendo o passado que lhe deu tal riqueza. Por outro lado a maior parte dos nossos músicos eram pessoas pobres, humilde e mestiças o qual os governantes brancos não tinham nenhum interesse em promover pois era assim que se pensava naquela época. E os poucos compositores brancos foram descriminados também por tocarem o rasqueado considerado “música de bugre e negro de beira de rio”.

Mestre Ignácio era pedreiro, Luis Cândido carpinteiro, Luis Marinho Policial e foi assim, não havia um estudo culturalmente dirigido para eles como existe hoje, tampouco apoio para que eles ocupassem somente com a música. As bandas eram formadas por garimpeiro, pescador, cururueiro, roceiro, lenhador etc... como dizia mestre Luis Duarte e Luis Marinho: “Aquele que escutava melhor e prestava sentido é que estuda música”.

Passando por todas essas vicissitudes em 1920 Ignácio Constantino de Siqueira (mestre Ignácio) e mestre Antonio dos Santos e auxiliado pelo musico Honório Simaringo criaram a chamada “Banda Operária” com mais doze músicos, e deu início praticamente na promoção das nossas músicas, pois era uma banda privada, criada pela gente do povo (dois negros) e o rasqueado começa a ser a música mais executada pela banda e também começa a ser registrada em partitura. Nessa mesma década a usina de Itaici em Santo Antonio do Rio Abaixo (Leverger) foi reorganizado a banda da usina e o estudo da música pelo então mestre João Marinho da Fonseca que como conta mestre Luis Duarte: “Eu era criança, lá tinha uma banda só de criança, onde eu aprendi a tocar saxofone em 1924 até 1929 quando mudei pra Cuiabá. A banda de música de Itaici foi organizada pelo mestre Mendes (Francisco Ferreira Mendes) ainda no final do século XIX a mando do dono Antonio Paes de Barros (Toto Paes) e logo após a sua morte em 1906 o Major Marilho de Almeida foi que contratou o mestre João Marinho da Fonseca”.

Ao longo do século XX acumulou-se muitas partituras de obras de músicos mato-grossense e que estão perdidas e espalhadas pelas famílias antigas, casernas, escolas e quartéis pois não houve uma discografia de registros fonográficos das obras por falta de vontade política e descriminação ao longo de mais de um século prejudicando o interesse dos próprios netos, bisnetos, tataranetos desses compositores bem como da própria comunidade cuiabana que também desenvolveu o chamado “Espírito Lerdo” (denominação do filosofo alemão F. Nietzsche quando criticou o seu povo alienado com a cultura cristã) em relação a sua própria cultura musical.

É importante ressaltar comentário do finado José Garcia (Filho de Tote Garcia do Conjunto Serenata) o trabalho de Dante Miraglia e J. Rabello Leite no empenho conjunto em promover o Conjunto Serenata em encontros políticos em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro. Rabello Leite como Secretário de Governo de Mato Grosso, conseguiu produzir o primeiro e único disco do Conjunto Serenata denominado Rasqueados Cuiabano em 1965, juntamente com a gravação também dos hinos católicos Cuiabanos (tradições cuiabanas). Mais tarde, o músico Benjamim Ribeiro e a “Turma do Morro”, grava também um vinil chamado Recordações, onde o clássico rasqueado Leverger de Arnaldo Leite e Zelito Bicudo é gravado pela primeira vez, juntamente com outras músicas que comemoraram os 250 anos de aniversário de Cuiabá.

O rasqueado poderia estar no cenário nacional há muito tempo e já fazendo parte da estampa musical brasileira como acontece com o samba, chorinho, maxixe, frevo, forro, chote, etc... Se houvesse uma consciência musical e empenho dos governantes para gravar desde o começo do vinil de 78 rotações por minuto e do fonógrafo. Teríamos um desenvolvimento tal como a Bossa Nova, o Jazz, o Tango que hoje tornaram-se musicas universais, pois foram expressões que saíram da necessidade de exaltar a vida após grandes conflitos bélicos, isto é: Tango e Rasqueado respectivamente nasceram por volta 1870, o primeiro a beira do Rio da Prata (Argentina) e o segundo a beira do Rio Cuiabá (Mato Grosso) após a Guerra do Paraguai. O Jazz nasceu à beira do Rio Mississipe (EUA) após a Guerra de Secessão(1.860). E a Bossa Nova a beira do mar após a 2ª Guerra Mundial (para sair do melancólico samba canção). É uma tendência natural do ser humano exaltar em música e dança a volta a vida. Isso aconteceu com o aparecimento da Tarantella Italiana e do melodioso movimento Barroco após a peste negra e as guerras da reforma protestante na Europa. Somente exaltando a vida através da música que o ser humano desenvolve a esperança e o credo na marcha e na senda virtual da condição humana.

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