MILTON PEREIRA PINHO
"Guapo"
O RASQUEADO CUIABANO
Definição da palavra rasqueado: "...arrastar
as unhas ou um só polegar sobre as cordas,
sem as pontear". (Acordes em glissandos, rápidos,
rasgado, rasgadinho, rasgueado e rasgueo) - Dicionário
Musical Brasileiro - Mário de Andrade. Origem
do Rasqueado Cuiabano.
O termo "rasguear Ia guitarra" é
expressão ibérica, de origem árabe-cigana
(sul da Península-Ibérica).
Em Mato Grosso, a expressão musical rasqueado
cuiabano ou dança popular mato-grossense, traz
no seu processo histórico toda uma saga, que
começou após o fim da Guerra da Tríplice
Aliança (Guerra do Paraguai), quando os prisioneiros
e refugiados da Retomada de Corumbá ficaram
confinados à margem direita do Rio Cuiabá,
atualmente cidade de Várzea Grande.
Logo após o final do conflito, estes prisioneiros
não voltaram para seu país de origem,
aqui permanecendo e espalhando-se ao longo do rio,
miscigenando-se e interando-se à vida dos ribeirinhos.
Essa integração resultou em várias
influências; costumes, linguajar e principalmente
danças folclóricas: a polca paraguaia
e o siriri mato-grossense. A primeira, pulsante e
larga, modulada no compasso ternário-composto,
a segunda, saltitante, com percussão forte
(de origem negra-bantu) modulada no compasso dois
por quatro. A fusão dessas duas danças
resultou numa terceira, o pré-rasqueado.
O pré-rasqueado limitou-se aos acordes de siriri/cururu,
devido ao seu desenvolvimento na viola-de-cocho, nos
chamados tchinírins. (baile da rale), onde
as formas de dançar receberam diversas designações
como: liso, crespo, rebuça-e-tchuça
(Termos populares dados aos movimentos coreográficos
da dança em salão) para mais tarde participar
das festas juninas, carnaval ou qualquer exaltação
festeira dos ribeirinhos. Na baixada cuiabana, mesclou-se
com o chamame pantaneiro, que estava em formação,
nascendo o chamado rasqueado de fronteira, pois o
desenvolvimento foi com a sanfona de quatro e oito
baixos (pé-de-bode) e mais tarde com o acordeão
de cento e vinte baixos, o qual tornou-se hoje o instrumento
marcante do rasqueado de fronteira. Quanto a melodia
e ritmo, o pré-rasqueado alternou-se por algum
tempo com facetas duplas, isto é: toadas de
siriri apareciam como rasqueado e toadas de rasqueado
como siriri. Com a proclamação da República
e a necessidade do maior entendimento entre as duas
classes (ribeirinhos e elite imperial), surgiu a oportunidade
da popularização do rasqueado. Os senhores
da classe imperial precisavam serem eleitos pelo voto
do povo. Isto levou os coronéis a buscar uma
música que trouxesse a população
para as praças. Iniciando-se, então
a assimilação do ritmo popular, denominado
rasqueado.
Mais tarde, com o crescimento das cidades, apareceram
as primeiras zonas de prostituição,
e o pré-rasqueado saiu das bocas das moças
da noite e, do convívio destas com os músicos
e coronéis nos cafés, e foi parar nas
partituras dos mestres de bandas de música
para, mais tarde, aparecer nas retretas já
com vários arranjos de influência musical
popular muito comum na época, como o chorinho,
valsa, samba, maxixe, tango de Ernesto Nazareth etc.
A entrada dos instrumento de sopro (sax, trombone,
trompete, clarinete, etc.) caracteriza o rasqueado
como música e dança urbana. Nesse mesmo
tempo, os trovadores de versos e cantores populares,
cedem lugar aos metais de sopro das bandas marciais
e, começa, assim como aconteceu com o chorinho,
maxixe, marcha, jazz, tango, fox-trote, a era dos
instrumentos voz-solo nas orquestras.
O rasqueado desperta com maior intensidade na população
da periferia das cidades da Baixada Cuiabana quando
começa a ser executado com os hinos de santos:
acompanhando a bandeira do Senhor Divino, São
Benedito, procissão de São João,
e indo aparecer nos chamados chá co bolo —
Expressão típica da Baixada Cuiabana,
corrutela de "Chá com Bolo" (café-da-manhã
a base de bolos típicos). É tradicional
na festa dos santos católicos (São Benedito,
Senhor Divino, São João, São
Pedro etc...) o dono da festa fazer a alvorada ao
som do hino do santo festejado e oferecer o "tchá
cô bolo" para começar a festança.
Usa-se o termo "chá" pois desde o
século XIX a bebida servida, era um chá
feito de erva mate queimada e adoçada.
A elite social que ainda se divertia ao sabor de sonatas
românticas nos saraus abominou o rasqueado à
primeira vista, considerando-o, coisa de gente de
beira de rio. Esse quadro só vai se alterar
com a juventude das décadas de 20 e 30, onde
Mestre Inácio, Honório Simaringo, Conjunto
Serenata, até o piano de Zulmira Canavarros
e Dunga Rodrigues conseguem infiltrar o rasqueado
nas noites de saraus e com o endosso das famílias
cuiabanas mais abastadas, que enviavam seus filhos
para concluir o 3 grau em Asuncion e Buenos Aires
(não existiam faculdades nessa época
em Cuiabá), os quais voltavam trazendo partituras
musicais de polca paraguaia que era uma das raízes
do rasqueado. Sem contar com a tática demagógica
da política pão e circo, onde a música
escolhida para ser executada nos comícios,
festas e encontros, era, obviamente o que o povo queria
ouvir.
Destacaram-se grupos musicais voltados ao tema; Banda
do Mestre Ignácio, Conjunto Serenata, Zulmira
Canavarros, Dunga Rodrigues, Nardinho, Bejamim Ribeiro
(acordeonista). Conjunto Cinco Morenos. Também
fizeram história os compositores Honório
Simaringo, José Agnelo, Mestre Albertino, Vicente
dos Santos, Tote Garcia, Luiz Cândido, Luiz
Duarte, Mestre Luiz Marinho, Zelito Bicudo, Odare
Vaz Curvo, Nilson Costantino, Namys Ourives, Dante
Mirágiia, Rabelo Leite, Gigo, Chilo e tantos
outros.
Uma das peculiaridades na história da música
mato-grossense é o fato do nome "rasqueado
cuiabano" ter sido cristalizado e popularizado
pelo conjunto serenata, que observou as conotações
autóctones da música que se fazia em
Cuiabá, estava longe da polca paraguaia, como
também do siriri. Concluindo que o rasqueado
era o canto de uma cidade nova, era um som urbano
que se desenvolveu nos metais das bandas de mestre
Ignácio e Albertino, tinha um sotaque de um
povo que gostava das mesmas coisas, melhor dizendo
era o som e dança da Baixada Cuiabana. Era
um rasqueado cuiabano.
