CURURU
O cururu, segundo Luís
da Câmara Cascudo, é uma invenção
jesuítica para efeitos catequéticos,
totalmente isenta de excitação sexual,
sendo, portanto uma prática respeitosa.
Ao descrever as origens do
cururu, o autor nos acrescenta:
Mário
de Andrade escreve: - “... os processos coreográficos
desta dança têm tal e tão forte
sabor de ameríndio, pelo qual sabemos das danças
brasílicas com cinematografia atual, que não
hesito em afirmar ser o cururu uma primitiva dança
ameríndia, introduzida pelos jesuítas
nas suas festas religiosas, fora (e talvez dentro)
do templo. E esse costume e dança permaneceram
vivos até agora”.
Chiarini discorda: - “Não
aceitamos a sua origem ameríndia, mas sabemos
que não lhe são estranhas influências
em comunhão do misticismo feiticista ameríndio
e os ofícios dos jesuítas. O cururu
é uma cantoria luso-afro-indígena”.
Não me foi possível identificar os elementos
indígenas ou africanos no cururu. Antes, o
cururu semelha dança e canto laudatórios
de origem portuguesa, diferenciados no Brasil. Os
instrumentos, viola, pandeiro, o ritmo, o estilo dos
versos, a especificação temática,
os típicos e característicos lá-lá-lá-lá
e lai-lai-lai-lai, inseparáveis dos “viras”
dos Minho, de Nazaré e do Alentejo, a dança,
se dança é o leve volteio que dá
o cururuzeiro ao iniciar e findar a trovação,
a cantoria do improviso sob moldes imutáveis
pelo costume, a marcha lenta do princípio,
quando se apresentam em linha, as finalidades devocionais
e sérias da exibição, a estrofe
quadrada, a volta à dominante, o mensuralismo
melódico, a obrigação subordinada
da letra (livre, ou ad libitium), à solfa (medida
simétrica, rítmica), nada, absolutamente
nada, lembra a influência ameríndia ou
africana. (...) Como coreografia é banal e
vulgar para qualquer região do mundo, não
possibilitando indicação de proveniência.
Ninguém vai alegar existência do cururu
em Portugal, porque não há. Cururu é
sapo em nheengatu, mas ninguém registrou que
os cururuzeiros paulistas, goianos e mato-grossenses
dançassem acocorados, aos saltos, imitando
os batráquios, como na dança dos cabindas.
Cururu virá da mesma cepa das loas, das louvações,
pequenas representações, com ou sem
bailado, vivas nos fins do séc. XVIII e que
passaram a significar apenas a louvação-poesia,
a saudação-poética, com a intercorrência
do desafio em versos improvisados, elemento português
e não ameríndio ou africano.
Com relação
às possíveis fontes que originaram a
palavra cururu, temos, ainda nas palavras de Luís
da Câmara Cascudo, a suposição
de Alceu Maynard Araújo que diz ser o cururu
um termo origens ligadas à deturpação
do vocábulo cruz, que o gentio pronunciava
curuce, curu. Conforme Câmara Cascudo:
A Repetição da última
sílaba é bem do sabor das línguas
primitivas.
E como dança catequizadora, era realizada diante
da cruz. “Em Tupi dizia-se Curuçá
e em guarani curuzu” (Teodoro Sampaio). Curuzu-cururu
dá rumo possível para um processo semântico.
Ainda com relação
às origens do cururu, temos a seguinte citação
de João Ribeiro, documentada na obra de Luís
da Câmara Cascudo:
(...) vim a saber se pratica entre
os bororos de Mato Grosso a cerimônia ritual
e funerária que chamam bacururu, e que é
celebrada entre clamores e algazarra grande. As palavras
bacururu e cururu têm radicais comuns. Não
é inverossímil que dos bororos tenha
vindo o nome da dança do cururu.
Em Mato Grosso, a prática
do cururu requer no mínimo dois cantores do
sexo masculino: um tocando uma viola-de-cocho e outro
tocando ganzá. Normalmente um grupo de cururueiros
conta com mais de dois integrantes e assim ocorre
o fato de estarem presentes mais do que uma viola
ou ganzá. Porém, o canto é realizado
sempre em dupla com intervalos de terça maior,
sendo acompanhados pelo toque dos demais instrumentos
presentes à roda do cururu.
Feita a roda de cururueiros,
dois integrantes dispostos lado a lado irão
começar a toada. O momento de se iniciar o
canto do cururu é precedido de uma partida
feita ao som de uma viola-de-cocho ao estilo de ponteio
com o polegar. Aos poucos os demais componentes da
roda vão tocando seus instrumentos e começam
então um interessante e mágico processo
de harmonização das batidas das violas
e dos ganzás. Segue-se a este momento o chamado
levante, onde o cururueiro que irá fazer a
primeira voz, chama a atenção dos ouvintes
da roda para o início do canto que será
seguido pelo segundo cantor em intervalo de terças.
Enquanto cantam, o andamento
ou pulsação rítmica sofre uma
pequena desaceleração, talvez pela necessidade
de se dar mais ênfase ao momento mágico
das palavras do canto. Ao término da projeção
da palavra, todo o conjunto instrumental promove uma
notável aceleração rítmica,
tornando a batida do cururu um tanto mais vibrante
e mais rápida em contraposição
à batida mais lenta e suave que acompanha o
canto.
Normalmente o cururu possui
uma parte inicial comum e conhecida, utilizada como
estribilho propulsor do canto, sendo seguida por outra
em que o cururueiro cria a seu gosto para adequar
o canto ao momento. Este processo de criação
pode ser preparado com antecedência pela dupla
de cantores, mas pode também ser repentina
e às vezes no ato de se cantar. Esta segunda
forma, um tanto brusca e imediata, cria um processo
muito curioso para quem faz a segunda voz. Muitas
vezes pude presenciar a impressionante capacidade
que certo cururueiros desenvolvem para adivinharem
quase instantaneamente o que cai pela mente do cantor
que faz a primeira voz, a fim de poderem acompanhá-lo.
Ao término da toada de cururu, os demais integrantes
da roda auxiliam como o chamado baixão
que se caracteriza por notas prolongadas entoadas
também em intervalos de terças, finalizando
é importante perceber uma certa desconstrução
do organismo instrumental de acompanhamento, que se
faz sentir aos poucos, quando cada integrante e parando
de tocar. Encerra-se assim cantoria de uma dupla.
Como a roda de cururu obedece
a um sistema que caminha no sentido horário,
o processo tende a se reiniciar com nova dupla, desta
vez com a participação do companheiro
que se encontra do lado esquerdo da última
dupla a se apresentar. Isto faz com que cada integrante
da roda de cururu participe sempre cantando com seu
companheiro da direita e depois da esquerda.
Bibliografia: S.A.F.
Abel; Uma Melodia Histórica, Eco, Cocho, Cocho–Viola,
Viola-de-Cocho.
Tocadores de Viola
de Cocho e Ganzá tocando e cantando Cururu.
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