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JOÃO BOLINHA

ABORDAGEM: O RASQUEADO CUIABANO COMO UM RITMO POPULAR; ORIGEM DO RASQUEADO; PRIMEIROS INSTRUMENTOS
UTILIZADOS NA EXECUÇÃO DO RASQUEADO; CAXIMBOCÓ; COSTUMES NA DANÇA E INDUMENTÁRIA DOS FESTEIROS.

O rasqueado para mim começou cedo porque desde os 10 anos de idade eu tocava junto com meu pai, não era só rasqueado, naquela época existia fox, fox trote, tango, bolero, samba de breque, maxixi, baião.

Minha aproximação com o rasqueado, foi através do meu pai, o Maestro Albertino, e foi revelado num baile lá na cabeceira perto de São Vicente, quando toquei pela primeira vez o rasqueado cuiabano.

Desde aquele tempo, até hoje o rasqueado é aceito apenas pelas classes operária e média. A alta sociedade nunca aceitou o nosso rasqueado, eles negam a música cuiabana e preferem MPB. Desprezam o nosso rasqueado e não quererem dançar porque têm vergonha. Da mesma forma os jovens de hoje não valorizam o rasqueado, o que me entristece muito.

Mas eu não permito que ninguém caçoe de meu rasqueado e nem permito que o nosso rasqueado seja lambadão, nem gafieira, nem outras coisas. Quero que seja a música cultural cuiabana de primeiro nível.

Eu acho que pré-rasqueado nunca existiu. Nós puxamos este ritmo da guarânea, música paraguaia, misturada com a polca paraguaia e o batido do ritmo indígena e do cururu e do siriri. A música do rasqueado divide em três partes. Ela divide no contra baixo, três por quatro e quatro por quatro. É uma das músicas mais difíceis que nos temos.

Agora estão fazendo música dizendo “besteira”, mas a nossa música cultural sempre teve nome e história, ela fala de uma cidade, fala de coisas belas da natureza. No o meu terceiro CD, gravei músicas que falam em araras, em rapaduras... Pescuma e Moisés Martins gravaram pixé, que veio do milho. São letras sadias, muito diferente disso o que estão fazendo agora.

O rasqueado surgiu da Polca Paraguaia e da guarânea, ao que saiba não existiu pré-rasqueado. O que nós tocávamos depois da guarânea era chalana “encoste sua cabecinha no meu ombro e chora”.

Todo o conhecimento que adquiri sobre rasqueado foi porque sempre andei com o grandes maestros, Mestre José Albertino (meu pai), Mestre Romão, Mestre Duarte Lima, Mestre Fanô, Mestre Luiz Candido, Mestre Inácio, Mestre Zé Galego, O Requengue de Cuiabá - lá do Baú, Sinfrônio, Conjunto Serenata, Pescuma, Moisés Martins, Lucialdo, Edilson.

Antigamente no nosso rasqueado existia bumbu, tamborim, pandeiro, pratinho, banjo, violino fone, porque era acústico não tinha luz naquela época, e quando tinha, ia só até meia noite, por isso que o baile começava cedo às oito horas e terminava as doze horas. Era tocado mais lento, o pessoal dançava melhor, não era essa “carrerada” de hoje, porque virou lambadão, uns tocam como lambadão outros tocam como mambo, outros tocam como música da Bahia, outros tocam como rock (banda STRAUS). O que considero uma falta de respeito com a nossa música, já que o mesmo não acontece em outros Estados e regiões. Ao contrário, a tendência das culturas regionais é expandir para todo o Brasil, como o axé da Bahia que tomou conta do carnaval do Brasil.

Na música regional de carnaval nós tínhamos o frevo, a vassourinha, as marchas, que foram esquecidas.

Antigamente, quando não tinha energia elétrica, existia o “caximbocó”, que era o som característico de cada banda, que fazia com que fosse identificada de longe, seja pelo toque, seja por fogos. Então os festeiros saíam a pé, com Garrafa de vinho, procurando o baile.

Existia também o termo “limpa banco”, ou seja, quando tocava no baile um rasqueado que as pessoas gostavam, não ficava ninguém sentado, demonstrando que era boa a orquestra. As pessoas, também, costumavam bater palmas, pedindo bis, e a banda repetia o rasqueado.

A dança não era agarrada como o pessoal dança hoje. Naquele tempo o cavalheiro vinha com lenço na mão, ai a dama vinha ao seu encontro, ele tirava o lenço dobrava, punha no bolso do palitó, então seriamente ela segurava no ombro dele com a mão, dançavam lisamente, e ao término da dança ele levava a dama até perto da família e dizia “muito obrigado”.

Outro detalhe era quanto à roupa dos festeiros. Ninguém entrava no baile com manga de camisa, até mesmo nos clubes de classe operária os homens iam de terno e gravata e as moça de vestido, bem arrumadinho.

Fonte: Rasqueado Cuiabano - Do pré-rasqueado às Mágicas da Mídia
Monografia de Graduação em Educação Artistica - Habilitação em Música/UFMT/2001
Autora: Maria do Carmo Aquino e Silva

 
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