FÁBIO ALBERTINO
ABORDAGEM: DIFERENÇA
DO RASQUEADO ANTIGO E O RASQUEADO ATUAL (COMERCIAL);
DISCRIMINAÇÃO DO RASQUEADO
E DOS ARTISTAS QUE O EXECUTAVA; MODIFICAÇÔES
NO RITMO E NA DANÇA; RIQUEZA DAS COMPOSIÇÕES.
Segundo alguns estudiosos
e pesquisadores da área do rasqueado é
a junção de dois ritmos, e parece com
a polca paraguaia, só que com uma situação
do ritmo diferente.
Eu não tenho um estudo mais apurado sobre o
tema, porque aprendi tocar por tradição
familiar, com meu pai e avós.
No tempo do meu avô o rasqueado era tocado para
animar as festas, não tinha função
de música para apresentação,
como hoje. Naquele tempo se tocava por tocar, porque
gostava, não tinha preocupação
econômica. Atualmente os shows transformaram
o rasqueado em um ritmo mais acelerado, ligado a industria
cultural, onde gira muita coisa. O rasqueado é
tocado mais para fazer gravações de
CDs, sem preocupar com a preservação
da cultural de raiz. Não se cria mais o rasqueado,
fazem algumas cópias, acelera o rasqueado,
pega-se trechos de algumas músicas e mistura.
Tem rasqueado que era cururu, juntaram cururu e siriri
e colocaram como ritmo de rasqueado. Naquele tempo
não se fazia isso, o cururu e o siriri eram
uma coisa e rasqueado era outra, não tinha
essa mistura.
O fato de o rasqueado ter se tornado comercial prejudicou
sua essência, porque se perdeu, se misturou
e algumas pessoas mais antigas dizem que já
está virando lambadão.
A dança também mudou, hoje se preocupa
mais em requebrar. Os amigos dizem que parece até
ser uma dança sensual.
O rasqueado tanto na dança como na música
era rebaixado, porque os músicos de fora, considerados
bons, não tocavam rasqueado, então quem
tocava era os cuiabanos. Foi bombardeado por vários
ritmos como o jaz, a bossa nova, e rejeitado pelas
pessoas de fora, que vinham para o Mato Grosso. Os
músicos que o executavam também eram
discriminados, falavam porque você quer tocar
rasqueado? toca outra música. Você é
um músico bom e fica tocando rasqueado.
Atualmente o rasqueado está sendo divulgado
fora de Cuiabá, e por isso, introduzido em
outras culturas, só que com essa modificação.
A mudança do rasqueado deu-se pelos próprios
instrumentos. Naquele tempo o rasqueado era tocado
em instrumentos de sopro, não tinha contra
baixo elétrico, guitarra, teclado.
Alguns músicos de fora não sentem muita
diferença porque quando chegaram aqui, o rasqueado
já estava praticamente modificado, tanto nas
letras como na dança. Mas para nós cuiabanos
que nascemos ouvindo e tocando o rasqueado, podemos
dizer que a mudança foi brutal.
Muitos músicos conscientes, como Pescuma, Henrique
e Claudinho, Guapo, tentam resgatar um pouco da música
mato-grossense como era tocada, porém a introdução
de instrumentos mais modernos como bateria, guitarra,
contra baixo, teclado, dá um ritmo mais acelerado,
diferente do tradicional. O abandono de alguns instrumentos,
como o baixo tuba, o baixo de sopro, que fazia só
as marcações, também contribuiu
para essa modificação do ritmo do rasqueado.
Não podemos também ser radicais; não
vamos estacionar aqui a cultura, resistir às
mudanças, não tem como.
Tem o CD do maestro Zé Agnelo está um
pouco diferente do ritmo, porque foi gravado em São
Paulo, com os músicos de lá. Tem o “lambari
na cuia” do Mestre Albertino que é tocado
pelo Mestre Bolinha, mas que também tem algumas
modificações, pela presença de
bateria, teclado, guitarra e outros instrumentos e
efeitos musicais. Tem o Juca de Mestre, tem o do Guapo,
dentre outros...
Muito se perdeu do ritmo antigo, pois nada foi arquivado.
Até algumas partituras do mestre Albertino
foram perdidas.
Se a gente for parar para analisar o rasqueado vai
perceber que ele é muito rico, e não
é fácil de ser executado no ritmo original.
O rasqueado antigo era rico em vários fragmentos
das músicas clássicas, pois os músicos
e compositores, sem querer incorporavam as experiências
musicais que viviam. Ai eu fico pensando como que
o rasqueado é rico. E me pergunto por que a
sociedade considerava o rasqueado uma música
sem valor? Graças a Deus hoje mudaram essa
visão.
Fonte: Rasqueado
Cuiabano - Do pré-rasqueado às Mágicas
da Mídia
Monografia de Graduação em Educação
Artistica - Habilitação em Música/UFMT/2001
Autora:
Maria do Carmo Aquino e Silva